quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sobre trabalho e ócio.

Quando passamos muito tempo fora de casa, imersos em trabalho, aprendemos a dar valor aos pequenos prazeres. Sim, aqueles mesmos que você desprezava nos seus momentos de profundo ócio.
Chegar em casa e desejar do fundo do coração que a comida venha voando da cozinha até seu colo vira algo justificável, porque você está cansada e quer um pouco da deliciosa tranquilidade de não fazer nada.
Os italianos chamam isso de "dolce far niente", ou em bom português, o "doce fazer nada", ou ainda "o doce ócio", em tradução livre. É disso que precisamos em nossas horas vagas, um dolce far niente, para aquietar a alma e adoçar o coração. Quanto mais eu vivo, mais aprendo a apreciar os detalhes, dos quais, passo uma vida prezando. 
Ler um livro, ouvir uma música, se esparramar na cama, sozinha ou acompanhada, fazer as unhas, ler uma revista útil ou inútil, fechar os olhos e sentir cheiro de planta, de terra, de chuva, de vento. Apreciar o silêncio, que as vezes é tão incômodo mas pode ser tão restaurador. Colocar a roupa para lavar e só ouvir o barulho da velha máquina e dos carros passando lá fora.

Hoje trabalho no meio executivo, tenho que tomar muitas decisões todos os dias, montar estratégias, criar coisas, "ler" as pessoas e planejar maneiras de falar melhor com elas. Preciso regular a máquina na quantidade de água certa, preciso fazer contas, almoçar no mais delicioso e caro ou no mediano barato? Fazer uma previdência privada ou investir para um apartamento? Nosso cérebro é uma ferramenta maravilhosa, mas como qualquer máquina pode ficar cansada, Não sou diferente.
Apesar disso, sinto muito prazer no meu trabalho pois o ócio cansa e enferruja. Nunca mais somos iguais depois de experimentar o sabor do labor, isso oxigena nossas cabeças, refresca nossas idéias. Dê valor ao seu trabalho, por mais que a gente se esqueça de todo esse discurso as 7 da manhã.
Quando você experimenta os dois lados da moeda, vai saber depois qual deles escolher. No meu caso venho experimentando doses cavalares de endorfinas quando um projeto dá certo ou uma peça é aprovada. Acho que isso é ser workaholic, um termo para algo como "fanático por trabalho". Eu amo meu ofício, foi o que escolhi para mim, e de alguma maneira, por mais que precise de um pouco de dolce far niente, é só um pouco, porque creio que quando for demais o alerta trabalho logo apitará aqui dentro.
Fechar os cadernos, deixá-los no trabalho, pegar o longo caminho até a casa, abrir com a chave, me esparramar no sofá, ligar a tv, checar o whatsapp, desejar que a comida venha voando.
Work, eat, sleep, repeat.

Nenhum comentário: