sábado, 11 de abril de 2015

O Dia em que senti alívio

Uma manhã de sábado comum, acordei cedo e fui trabalhar. Um banho normal, um café pingado, com o mesmo adoçante de sempre, normal. O velho All-Star rosa Pink, a bolsa de claquete, nos fones, rádio cidade.
Pego meus óculos e ganho a minha normal rua, da qual já estou acostumada, e desde que regressei, cada dia procuro uma nova beleza para admirar.

De repente, sem querer, paro e percebo que estou conseguindo ouvir a Rádio que há séculos amo, sem sentir um desconforto no coração. Simplesmente ouço e pronto. Ontem a noite estive numa festa na Freguesia, algumas lembranças, é claro, tive medo de não aguentá-las, mas ai percebi que além de conhecer os caminhos melhor do que imaginava, cheguei, permaneci e fiquei muito bem. Comi, bebi, conversei, ouvi a música e depois do clássico "parabéns" fui embora. No caminho de volta, silêncio e contemplação. Tranquilidade.

Finalmente quando paro e junto esses fatos, percebo como numa revelação divina que não estou sentindo dor, e isso traz uma sensação tão maravilhosa de júbilo e paz interior! Sinto vontade de cantarolar bem baixinho, só pra mim, uma música qualquer, admirar o sol das 15h batendo na rua mais linda e bucólica de Botafogo, ir na cobal e encontrar os velhos conhecidos na fila do pão, reclamar da Dilma, da crise, falar da vida e sem aquele peso do "- Tudo bem?" "- Estou levando". Não! As coisas não estão perfeitas, ainda falta a tal estabilidade financeira, ainda faltam oportunidades, mas ainda assim, está tudo bem!

Evidente que muitos momentos de altos e baixos, TPMs, carências naquele sábado a noite em casa e tantas outras sensações ainda virão. Sei que as lembranças e os sentimentos existem e não serão apagados de minha mente, mas ainda assim, lembro de quando uma pessoa me disse que "Cada dia dói menos". É claro que parece óbvio, mas quando estamos no meio de emoções, não conseguimos enxergar a luz no fim do túnel, e por conseguinte acreditar que essa dor vai estagnar, cicatrizar.

No réveillon cai no chão e machuquei minhas duas mãos. Feriu, sangrou, ardeu, levantou pele. Por uma semana sentia incômodos toda vez que batia água ou produtos de limpeza ali, até o sabonete do banho fazia arder, foi horrível. Achei que não fosse aguentar, que fosse demorar a passar, e ainda por cima tive medo de complicações por uma possível não cicatrização. Dez dias depois começou a melhorar, e foi doendo menos e menos até as cascas caírem e apenas uma cicatriz feinha ficar no lugar e enfim conseguir fazer as coisas normais sem sentir dor ou incomodo algum. Hoje em dia eu olho e vejo só uma marquinha muito fraca, quase apagada, mas que serve para me lembrar do momento e que não devo correr com o chinelo que estava usando nesse dia, para não tropeçar de novo.

Lembrando dessa história tão banal, vejo que os rompimentos, términos, despedidas, demissões e tantos outros acontecimentos que simbolizam um fim e nos marcam são como esse machucado. O processo é exatamente esse, sem tirar nem por. Sentimos a inesperada dor, achamos que não vamos suportar, sofremos, choramos, reclamamos para todos a nossa volta, evitamos coisas que possam nos fazer lembrar desse momento, as vezes sentimos um pouco de pena de nós mesmos até, não queremos nos levantar e abrir as cortinas. Cada dor define a intensidade desse processo. Mas ai, de repente, quando aquelas sensações ruins parecem já fazerem parte de nossas vidas, finalmente percebemos que as coisas estão melhores do que imaginamos. Nos sentimos um pouco mal as vezes, mas ao mesmo tempo bem, até o dia em que as cascas começam aos poucos a cair, até só sobrar a cicatriz.

Nesse momento entendi que estou com minhas cascas começando a se soltarem, sei que ainda tenho algumas barreiras a vencer, e que depois ainda virá o maior desafio,o de lidar com a cicatriz e lembrar que novas experiências não necessariamente irão me ferir da mesma forma e que por isso não deverei evitá-las. Mas sei que de alguma forma vou aprender a lidar com ela, será mais uma para a coleção das várias que carrego, e sem dramas, pois elas fizeram de mim quem sou hoje, moldaram meu caráter, experiências, minha história.

Enfim, admitir esse tipo de coisa é tão calmo e restaurador, me faz ficar em paz. A cada pequena percepção como essa, enxergo uma vitória e me sinto mais forte, restituída. Agradeço a Deus pelo júbilo, pela pequena alegria que muda meu dia, e peço para que essa sensação não se acabe nos próximos dias. Os desafios vão vir, alguns vou enfrentar prontamente, outros irei hesitar até aceitar e sentir isso é tão humano. Nos permitir viver assim é o verdadeiro sentido da existência.

A dor vai ser menor até passar, está melhorando, estou melhor. Esse é o dia que enfim senti alívio por viver.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Carta ao querido estranho.

Querido Estranho,

hoje te chamo assim porque não somos mais nada, e sei que não seremos amigos, então não consigo encontrar outra forma de dizer, ou nomear. Estou passando por momentos de profunda reflexão, e nesses vejo o quanto tenho coisas a dizer, mas também não irei lhe procurar para tal, até porque não ficaria bem para mim. Tenho certeza de que nunca irá ler essas palavras, mas em todo o caso creio que isso me trará um pouco de paz interior.

Na minha caminhada até aqui, vejo o quanto estou aprendendo da pior forma possível todos os conselhos que deveria ter seguido antes. Estou revendo minha vida e percebendo o quanto abdiquei da mesma para viver a sua, o quanto minha inexperiência amorosa fez com que me deixasse envolver "até o pescoço" nessa história, num nível que fui do deslumbre ao desastre. Me entreguei demais, e deixei as coisas irem numa desproporção incrível, e que desgastou essa história. Eu achei que tentando controlar tudo iria estar sempre segura, quando na verdade isso era apenas uma ansiedade descontrolada e que não me levou a lugar nenhum. Se uma pessoa tiver de te deixar ou fazer algo ruim, irá fazer, independente de você achar que tem a previsão de tudo.

Não adianta esperar que as pessoas mudem o que são para ser o que esperamos. Você sempre foi duro, individualista, ambicioso, detestava momentos românticos demais e a sós, bem como comemorar aniversários de namoro, amava coisas que me incomodavam profundamente, carregava coisas do seu passado (por mais que não admitisse) que influenciavam a forma de se relacionar hoje.
E eu achei que poderia te mudar, te fazer alguém mais doce, romântico, sensível, e que fosse capaz de abrir mão de algumas coisas pelo outro, mas isso foi um erro. As pessoas só mudam o que querem, e quando querem.



Aprendi também que não vale a pena mendigar e implorar por atitudes e coisas que o outro não pode te dar, tampouco ter medo das outras pessoas que passaram pela vida dele antes de mim, pois nada disso fará as coisas mais fortes ou ficarem da maneira que eu sempre desejei. Quem passou por nossas vidas deixou coisas e nos tirou outras. No mais, ou aceitamos o pacote que nos entregam ou devolvemos ao destino. Não existe PROCON pro coração.

Entendi também que ninguém te o direito de falar mais alto que eu ou me empurrar, nem mesmo numa discussão. Que não devo ter medo de perder o outro e ai deixar de argumentar nesses momentos. Se depois a pessoa nos virar as costas, azar. Não podemos nos anular diante do conflito, mesmo que esse seja com quem temos algum sentimento.

Também não quero mais em dia nenhum deixar de fazer pequenas coisas em minha aparência, bem como achar que o outro não deve fazer. Cada um é dono de seu corpo, e devemos nos amar pelo o que temos a oferecer.

Sei que ficou aliviado quando saí de casa e feliz quando soube que me envolvi com outra pessoa. Essas coisas me fazem ver que na verdade você não me amava mais, e me pergunto até onde me amou, se me amou mesmo. Mas ao mesmo tempo sei que isso é inútil pois não terá resposta, e mesmo que houvesse, não sei se faria diferença.

Dizem que "um amor se cura com outro", e essa é a maior bobagem que alguém falou. Amor de verdade não passa assim, de uma hora para outra. Você pode gostar bastante de alguém, de sua companhia, se deixar envolver, ter tesão, fazer sexo, mas amar é difícil nesse caso. Por ventura, me permiti, e não me arrependo, foi bom enquanto durou e acrescentei mais um ponto em minha história, ensinei e aprendi, mas hoje sei que isso só serviu para amenizar temporariamente as coisas pois hoje aceito para mim mesma que estou em "quarentena amorosa" e que adiei tudo o que estou sentindo agora. Me divido enfim em raiva pelas coisas ruins e lembranças das coisas boas, nada mais e nada menos do que uma avalanche de emoções, recordações e conclusões.

Hoje entendi que temos objetivos diferentes na vida, eu sonho em casar, ter filhos, ser uma profissional de sucesso fazendo algo que não é tido como item fundamental em nossa sociedade. Você sonha em sair do país e fazer fortuna, sem filhos e com uma mulher desapegada e com uma profissão estável. Você quer um amor amigo, e eu, um amigo amor. Amor amigo é aquele que coisas com intimidade é algo secundário, onde se tem um desprendimento enorme de ciúmes e conceitos.
Um amigo amor tem uma sintonia enorme com você, te leva pro seu mundo e se deixa levar pro seu, vocês se desdobram para combinar todos os momentos, em coletivo e só vocês dois. Vão ajustando seus objetivos em prol de um caminho comum.

Entendi ainda que preciso dar mais atenção aos meus projetos pessoais, a minha saúde, meus hobbies, as coisas que amo fazer, os filmes e livros que amo ver e ler, a mim mesma por um todo, pois ninguém admira quem abre mão de si pelo outro o tempo todo. Que o outro também precisa de um tempo as vezes. Que ciumes não prende ninguém e nem é garantia de nada, ao mesmo tempo que todo mundo gosta de saber que o outro luta um pouquinho por nós, nem que seja as vezes, só para nos impressionar. Mas que lutar demais também é desespero.

Se alguém não está na mesma sintonia, não adianta forçar, alguma hora o barco afunda e não haverá a cola certa para fechar os buracos, e ai quem não tiver um bom bote salva vidas bebe água.

Eu sou uma romântica, sentimental, poeta, cronista, blogger, designer, diagramadora, "sincericida", e "calculadora em dedos" incorrigível. Ou essas coisas ainda vão acabar comigo, ou quem sabe me levarão a algum lugar.

Essas respostas eu nunca terei, bem como a certeza de que nunca mais nos veremos, mas as palavras sempre me trazem acalanto. Essa temporada vai passar, essa chuva vai estiar, eu vou conseguir ficar menos desconfiada com o outro em algum momento do futuro e vou continuar a reescrever minha história. A você, desejo tudo de bom, e que seja capaz de rever seus erros e entender essas palavras se elas um dia chegassem a ti.

Talvez eu me arrependa em me expor dessa forma, mas ainda não aprendi ser de outra forma.

Essa densidade e esses sincericídios ainda vão me levar a algum lugar.

Fabiana.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Eu, Jovem, Diabética.

Hoje fazem 1 ano e 4 meses que fui diagnosticada com Diabetes tipo 2. Esse dia foi estranho, mas significou a longo prazo muitas mudanças e a constatação de que nada na vida é por acaso. Sei que parece óbvio, mas acredite, não é tanto assim e eu vou chegar lá.

A parte mais difícil é mudar seus hábitos convivendo em sociedade. Cheguei a conclusão de que é como ser um ex alcoólatra, você tem que ver todos fazendo uma coisa que é socialmente normal porque eles podem e você não, simples assim. E sinceramente? Ninguém gosta de se sentir excluído do "clubinho dos prazeres" (e por favor, quem não vê prazer em, por exemplo, um petit gateau ou doces em geral deveria procurar ajuda psiquiátrica, rs).



Isso tudo se agrava quando se é jovem, afinal todos pensam que você tem o tipo 1 (isso é, quando sabem fazer a diferenciação, a tendência geral é que todos acham que é só "dar uma canetada de insulina na barriga e é nós Queiroz", quando é bem mais profundo do que isso.) ou simplesmente tiram conclusões estapafúrdias do "porque você tem diabetes tão novinha" ("Ah, comeu muito doce né?" ou "Gordo é assim mesmo, não faz um exercício ai já viu". A lista é interminável caríssimos...). Em suma, o que me resta é conviver com as especulações e ter respostas sensatas e prontas (Ou as que eu realmente gostaria de dar em alguns casos mas não posso, tipo, "Eu curto um sofrimento voluntário, é, é isso ai.", "sabe como é, na minha última visita a fábrica da Garoto eu super surtei e tal", "Na verdade eu costumava colocar a boca na saída do sorvete de baunilha do Mc Donald´s ao invés de pegar na casquinha igual a todo mundo". Sim, eu tenho uma imaginação fértil...).

Na verdade eu tenho diabetes pois meu pai e meus avós paternos são todos portadores do mesmo mal crônico e do mesmo tipo. Eu já portava essa predisposição em meu DNA e ela escolheu desencadear aos 22 anos.

Hoje em dia existem muitos produtos de ótima qualidade no setor Diet/Light/Zero, porém nem todos estão sempre disponíveis nas prateleiras de qualquer supermercado, os preços são abusivos, eu me torno refém das lojas de produtos naturais e a não ser que eu faça um estoque desses produtos em casa, não posso me dar ao luxo de desejar comer do nada um brigadeiro por exemplo, pois as mesmas fecham cedo normalmente (especialmente aos sábados). Isso torna atividades simples e frugais como degustar um docinho num final de semana a noite um grande desafio algumas vezes.

Ah, sem contar sobremesas na rua! Convencidamente os restaurantes e lanchonetes (em sua maioria) não estão prontos para oferecerem algo a mais que um pacote de chiclete sem açúcar no caixa. As grandes marcas populares de sorvetes (Nestlé, Kibon) não tem um portfólio muito extenso de sabores, especialmente nos picolés. No fim você se rende a outras marcas deliciosas (La Basque, Sorvetes Itália), porém caríssimas e difíceis de serem encontradas corriqueiramente. De modo geral, eu dou pulos de alegria quando vejo mais do que 2 opções diets fora de lojas com a extensão "verde" no final do nome (Aqui no RJ tem uma casa de doces chamada "Torta e Cia", fica no Humaitá e tem uma torta de brigadeiro e um pudim de leite, ambos diets, e são de comer rezando, não tem gosto de adoçante. Enfim, eles tem o poder de fazer a minha tarde mais feliz num final de semana qualquer, rs)

Vivemos num país onde a atenção aos produtos diets é ainda restrita e com uma propaganda muito voltada para a 3a idade, pois a ideia de uma pessoa jovem ser diabética parece ser algo socialmente inaceitável.

No mais, o mundo continua cheio de coisas doces sendo lançadas e propagadas todos os dias e quase sempre sem pensarem ao menos uma ou duas opções numa versão sem açúcar. Evidente que todo mundo tem seus dias de glória e de perda, e são nesses dias que me rendo as doces tentações. O que em alguns casos é perdoável, de acordo com a nova Endocrino (em quantidades moderadas e ocasiões sociais/festivas), mas ainda assim deve se vigiar, muito. Tenho noção de todos as perigosas consequências que um Diabetes mal cuidado pode trazer, e quero de alguma maneira policiar mais meus instintos afim de evitá-las.

Apesar de tudo, sei que ganhei muito com essas mudanças forçadas. perdi uma quantidade significativa de peso, hoje penso mais nas quantidades de certos alimentos, dou valor a coisas simples que antes eram corriqueiras no meu cardápio cotidiano e passavam desapercebidas, e principalmente entendo melhor a importância de cuidar dessa máquina fantástica e única que é o nosso corpo!

Continuarei reclamando e lutando dentro do que posso por melhorias no cotidiano diabético, além de procurar conscientizar as pessoas ao meu redor de como o diabetes é algo normal, que não deve ser digno de pena ou alvo de piadas (pasmem, existe preconceito em alguns casos), que nem tudo se resume a um tipo ou diversos, só existem 2 e já está de bom tamanho.

Se você é jovem, não tenha vergonha de comentar socialmente que é diabético, quebre os paradigmas e preconceitos, e seja um elo na luta para um mundo aonde isso seja tratado com naturalidade.

No mais, um dos dias mais felizes será quando eu olhar numa prateleira de supermercado e vir uma versão diet de Oreo ao lado da normal. :)