quarta-feira, 1 de abril de 2015

Eu, Jovem, Diabética.

Hoje fazem 1 ano e 4 meses que fui diagnosticada com Diabetes tipo 2. Esse dia foi estranho, mas significou a longo prazo muitas mudanças e a constatação de que nada na vida é por acaso. Sei que parece óbvio, mas acredite, não é tanto assim e eu vou chegar lá.

A parte mais difícil é mudar seus hábitos convivendo em sociedade. Cheguei a conclusão de que é como ser um ex alcoólatra, você tem que ver todos fazendo uma coisa que é socialmente normal porque eles podem e você não, simples assim. E sinceramente? Ninguém gosta de se sentir excluído do "clubinho dos prazeres" (e por favor, quem não vê prazer em, por exemplo, um petit gateau ou doces em geral deveria procurar ajuda psiquiátrica, rs).



Isso tudo se agrava quando se é jovem, afinal todos pensam que você tem o tipo 1 (isso é, quando sabem fazer a diferenciação, a tendência geral é que todos acham que é só "dar uma canetada de insulina na barriga e é nós Queiroz", quando é bem mais profundo do que isso.) ou simplesmente tiram conclusões estapafúrdias do "porque você tem diabetes tão novinha" ("Ah, comeu muito doce né?" ou "Gordo é assim mesmo, não faz um exercício ai já viu". A lista é interminável caríssimos...). Em suma, o que me resta é conviver com as especulações e ter respostas sensatas e prontas (Ou as que eu realmente gostaria de dar em alguns casos mas não posso, tipo, "Eu curto um sofrimento voluntário, é, é isso ai.", "sabe como é, na minha última visita a fábrica da Garoto eu super surtei e tal", "Na verdade eu costumava colocar a boca na saída do sorvete de baunilha do Mc Donald´s ao invés de pegar na casquinha igual a todo mundo". Sim, eu tenho uma imaginação fértil...).

Na verdade eu tenho diabetes pois meu pai e meus avós paternos são todos portadores do mesmo mal crônico e do mesmo tipo. Eu já portava essa predisposição em meu DNA e ela escolheu desencadear aos 22 anos.

Hoje em dia existem muitos produtos de ótima qualidade no setor Diet/Light/Zero, porém nem todos estão sempre disponíveis nas prateleiras de qualquer supermercado, os preços são abusivos, eu me torno refém das lojas de produtos naturais e a não ser que eu faça um estoque desses produtos em casa, não posso me dar ao luxo de desejar comer do nada um brigadeiro por exemplo, pois as mesmas fecham cedo normalmente (especialmente aos sábados). Isso torna atividades simples e frugais como degustar um docinho num final de semana a noite um grande desafio algumas vezes.

Ah, sem contar sobremesas na rua! Convencidamente os restaurantes e lanchonetes (em sua maioria) não estão prontos para oferecerem algo a mais que um pacote de chiclete sem açúcar no caixa. As grandes marcas populares de sorvetes (Nestlé, Kibon) não tem um portfólio muito extenso de sabores, especialmente nos picolés. No fim você se rende a outras marcas deliciosas (La Basque, Sorvetes Itália), porém caríssimas e difíceis de serem encontradas corriqueiramente. De modo geral, eu dou pulos de alegria quando vejo mais do que 2 opções diets fora de lojas com a extensão "verde" no final do nome (Aqui no RJ tem uma casa de doces chamada "Torta e Cia", fica no Humaitá e tem uma torta de brigadeiro e um pudim de leite, ambos diets, e são de comer rezando, não tem gosto de adoçante. Enfim, eles tem o poder de fazer a minha tarde mais feliz num final de semana qualquer, rs)

Vivemos num país onde a atenção aos produtos diets é ainda restrita e com uma propaganda muito voltada para a 3a idade, pois a ideia de uma pessoa jovem ser diabética parece ser algo socialmente inaceitável.

No mais, o mundo continua cheio de coisas doces sendo lançadas e propagadas todos os dias e quase sempre sem pensarem ao menos uma ou duas opções numa versão sem açúcar. Evidente que todo mundo tem seus dias de glória e de perda, e são nesses dias que me rendo as doces tentações. O que em alguns casos é perdoável, de acordo com a nova Endocrino (em quantidades moderadas e ocasiões sociais/festivas), mas ainda assim deve se vigiar, muito. Tenho noção de todos as perigosas consequências que um Diabetes mal cuidado pode trazer, e quero de alguma maneira policiar mais meus instintos afim de evitá-las.

Apesar de tudo, sei que ganhei muito com essas mudanças forçadas. perdi uma quantidade significativa de peso, hoje penso mais nas quantidades de certos alimentos, dou valor a coisas simples que antes eram corriqueiras no meu cardápio cotidiano e passavam desapercebidas, e principalmente entendo melhor a importância de cuidar dessa máquina fantástica e única que é o nosso corpo!

Continuarei reclamando e lutando dentro do que posso por melhorias no cotidiano diabético, além de procurar conscientizar as pessoas ao meu redor de como o diabetes é algo normal, que não deve ser digno de pena ou alvo de piadas (pasmem, existe preconceito em alguns casos), que nem tudo se resume a um tipo ou diversos, só existem 2 e já está de bom tamanho.

Se você é jovem, não tenha vergonha de comentar socialmente que é diabético, quebre os paradigmas e preconceitos, e seja um elo na luta para um mundo aonde isso seja tratado com naturalidade.

No mais, um dos dias mais felizes será quando eu olhar numa prateleira de supermercado e vir uma versão diet de Oreo ao lado da normal. :)

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