domingo, 29 de março de 2015

O mito do lenhador romântico

O lenhador romântico é aquele que ao final da lida sempre volta para casa com o coração inicialmente aos pulos, e depois calmamente feliz. Mãos ásperas da labuta, corpo cansado, vestes sujas. Tudo que ele deseja é um bom banho, uma roupa confortável e limpa, e enfim, estar com sua amada.

Não importa quantas árvores tenha derrubado com seu machado, quanto peso carregou, quantos gritos deu com seus subordinados ou quantos ouviu de seu chefe, a maior espera no caminho de volta é ouvir aquela voz e sentir aquele perfume pontual que o faz sonhar acordado.

No momento de retorno ao lar, o resto é o resto, o que importa é o conforto, o aconchego, o barulho abafado da tv, o cheiro da comida fresca e o abraço apertado que parece um ninho, de amor e proteção desse mundo tão atribulado e exigente.

Da porta para fora ele precisa ser forte, sisudo, as vezes até meio rude para ser ouvido, mas sem nunca perder a educação e o senso de justiça. Ele é um leão na luta selvagem pela sobrevivência e pela vida. Porém, da porta para dentro ele finalmente pode se despojar dessa armadura cansativa e ser ele mesmo, sem amarras ou receios.



Ele pode ser sincero sobre seus sentimentos, um pouco sensível até. Pode rir de gargalhar, pode demonstrar carinho, sorrir e assobiar uma velha canção. Pode olhar bem fundo nos olhos de sua mulher, deixar uma lágrima de emoção rolar, demonstrar carinho e beija-la com o ardor que só os apaixonados conhecem.

O lenhador dá o melhor de si para quem merecer, mas estes são poucos. Ele sabe ser um amigo fiel, um bom filho e um companheiro devotado. As vezes colhe tulipas frescas no jardim do caminho, noutras um bilhete de bom dia com uma xícara de café e biscoitos ao sair para trabalhar antes da primeira aurora. Ele conhece os gostos de sua amada de cor, e 7 dias antes de seu aniversário lhe deu um lindo vestido longo azul turquesa. Dela, arrancou um sorriso, lágrimas contidas de emoção, um "muito obrigada" e muitos, muitos beijos e carinhos. Nele, havia uma grande explosão, peito em festa, um turbilhão de emoções, essas coisas boas e bonitas que só se sente perante um grande amor.

O lenhador romântico pode existir, ou ainda ser um mito criado por mim (por isso o título), isso nunca saberemos. Para muitas mulheres no mundo, ele pode ser um ideal de vida, mas nada que idealizamos demais costuma dar certo. Na dúvida, fique com o parecido a descritiva.

Se você, homem, em algum momento se sentiu como o lenhador, por favor, não deixe que isso morra dentro de ti, pois permitir essa morte é sepultar seu lado mais doce e que com certeza fará alguma mulher muito feliz. Seja forte para o mundo e conserve o mel do fundo para todos que guarda em seu coração que as vezes é feito de lar para que essas pessoas possam gentilmente habitar.

domingo, 22 de março de 2015

Sobre perdas e as últimas horas - Uma carta com dor e amor.

Você se foi as 18:45. Foi tudo tão rápido, como um sopro, ou um respiro. Os médicos disseram tudo com palavras suaves e dando voltas. Nesse momento eu entendi o quanto a vida é efêmera, e como estou vivendo um processo de perdas em série.
Perdi namorado, perdi trabalho e agora perdi você. Você, minha tia querida, que fez parte da minha vida, que me ensinou coisas maravilhosas sobre os livros, sobre etiqueta, sobre cultura, sobre artes e sobre a vida. Me ensinou com conselhos e com seu exemplo, sua vivência nos últimos tempos, quando estava sendo rapidamente vencida pelo relógio do final da vida. Quando recebi a notícia de que tinha apenas algumas horas mais, me senti como numa "expectativa do horror", pois é uma espera que não passa. Cada minuto vira uma eternidade e esse tempo vai nos consumindo até os ossos.
Nessas horas, desde sábado a noite, fiquei lembrando de mil coisas. Momentos de minha vida, momentos com você, promessas que me fizeram e não foram cumpridas, momentos com outras pessoas que já passaram e hoje simplesmente não fazem mais parte da minha história. Isso tudo me fez chorar mas ao mesmo tempo só me faz entender mais e mais coisas, uma avalanche de conclusões numa montanha russa de sentimentos, altos e baixos.
Eu errei, acertei e acima de tudo fiz tudo que achava e tinha capacidade de fazer em cada momento. Fiquei lembrando de quando outrem me dizia que estaria comigo quando isso acontecesse, e ai olhei para o lado no tempo presente e vi que não havia ninguém parecido com você ali. Isso me fez ver como nada na vida é para sempre e que não devemos entregar nossos sentimentos e expectativas sobre o outro, pois certamente ele falhará conosco e com suas promessas em algum momento. Entreguei meu melhor, corpo e alma, e tive meu coração esmagado pelo fim de tudo que sonhei, numa noite após a discussão e a agressão mais esdruxúlas da minha vida. Percebi que talvez nada daquilo que foi dito por tanto tempo era verdade, me joguei numa vida que não era a minha com tudo o que eu tinha de mais puro em mim e me vi acordando no escuro e sozinha. Nosso caminho é cheio de surpresas, e algumas delas são pavorosas.
Teve também ainda mais uma pessoa, da qual entreguei algumas esperanças, devido a uma pureza de sentimentos, e também não foi o que esperei. Em você e no seu "amor juvenil" eu esperei encontrar acalanto, amor, amizade, carinho, e em troca te daria tudo o que um garoto poderia querer de um primeiro amor. Algumas falhas operacionais e eu te espremi de um lado, e você arrancou algumas pétalas de mim, de outro, e as jogou ao vento, se deixando levar pelo momento. Sei que se arrependeu, mas hoje entendi que não há volta e essa é a coisa mais certa, quando algo morre não deve haver volta.

Agora, estou aqui tentando aceitar que nunca mais verei ou ouvirei a voz de uma das pessoas mais especiais que tive o orgulho de ter em minha vida, pois ela se foi e agora está junto de Deus.
Tenho a consciência de que lutamos juntas, lado a lado, e passamos por todas as fases. Ambulância, hospital, cadeira de rodas, andador, muletas, fisioterapia, cabelo caindo, rádio, químio, cabelo crescendo, esquecimento, fraldas, seu silencio progressivo, hospital de novo, sua luta com a vida em cada respiração que significava um esforço tão grande, numa tentativa desesperada de existir até o último fio.
Eu vou sempre me lembrar de quando chamava minha avó de "Juju", e fazia um esforço tremendo para convencê-la a se maquiar para ir a missa de domingo. Ou quando me levava a casa de chá do CCBB e pedia o café completo com um quiche para você e geléia de laranja com waffles para mim. Quando tentou me ensinar a chamar o garçon quando eu tinha 5 anos, quando me escreveu diversos cartões em cada aniversário, quando me disse que eu deveria aproveitar o frescor da juvetude e dizia que eu ficava "uma gracinha" de all star e vestido pois "você é jovem e tudo fica bonito numa jovem com frescor". Quando me servia uma madelaine com chá e me dizia que eu tinha muito o que aprender na vida, quando me levou ao Theatro Municipal para assistir "Coppélia" (Um dos ballets mais bonitos que já assisti em toda minha vida), as diversas exposições e idas ao Estação Botafogo e ao Unibanco Arteplex.

Fiquei muito revoltada, pensando no porque estou passando por todas essas coisas ruins de uma vez só, e em tão pouco tempo, mas agora que cada uma delas acabaram eu entendi o porque. Na vida, temos que passar por coisas muito duras para crescermos, termos nossas cascas arrancadas e ai sim florescermos aos poucos.
Há 10 meses atrás eu era uma garota da zona sul que passou por momentos dificeis e trabalhou bastante, mas não conhecia mais algumas partes da vida. Hoje sou uma mulher que conhece várias pontas do Rio de Janeiro, aprendi e estou aprendendo na prática, coisas sobre ter uma casa, responsabilidades ainda mais profundas, dor, amor, prazer e morte.
Eu sou grata a tudo que vivi pois não deixei passar nenhuma oportunidade e não vou ter nenhum arrependimento do tipo "não fiz, como teria sido se eu tivesse feito?", estou combalida e devastada agora, se eu fosse um jardim estaria com minhas árvores derrubadas e flores mortas, mas sei que com o tempo e o carinho sincero de quem me considera e tem amizade por mim, esse jardim vai florescer novamente e eu irei encontrar junto de Deus novas formas de viver e ser genuinamente feliz.
Vou conseguir usar tudo que aprendi, passar por cima desses sentimentos pavorosos e ficar só com a saudade perene e as lembranças dos bons momentos, todos eles. E de você tia, sei que vou levar além de tudo isso sua alma perto de mim, sempre me protegendo e seu coração junto do meu, me abençoando.
Obrigada vida, por todas as lições. Obrigada pessoas que me decepcionaram, pois até com vocês tive ótimos momentos, decepções que me ensinaram a viver e muitas lições, e por último e para encerrar com muita honra, obrigada Maria Isabel Falcão, por ter sido essa mulher forte e independente que me deu carinho e coisas incríveis por toda sua existência. Só terei orgulho de ter sido sua sobrinha. Que a sua luz irradie por todos nós nessa noite de chuva que limpa nossas lágrimas e tristeza, e que prepara o céu em festa para que possa ser recebida por Deus e meu avô, Seu Edgard, de braços abertos e ambos, cheios de amor.

Eu vou te amar para sempre, e esse é um dos amores mais puros que a maldade do mundo nunca irá me tirar

Com carinho

Fabi

sábado, 7 de março de 2015

Eu prometo.

Eu te prometo amor, fidelidade e sinceridade. Te prometo dar tudo que uma mulher pode tentar dar de bom a um homem numa relação, prometo rir, fazer piadas e ironias com o cotidiano, tentar deixar de lado qualquer preconceito bobo ou medinho e tentar ser amiga dos seus amigos, prometo sorrir, dedicar músicas, fotos e beijos. Fazer brigadeiro de colher com granulado colorido num sábado a tarde. Colocar meu melhor perfume nos lugares estrategicamente pensados para te inebriar e seduzir. Prometo te ajudar a escolher a gravata, dançar de um jeito bobo pra te divertir e também a sério para arrasarmos numa eventual pista.

Mas o que nem todos se lembram de deixar claro quando as coisas legais já estão sendo descobertas é o que eu vou acabar fazendo por parte do meu "lado b". Vou ter TPM, ciúmes, vou querer algumas coisas a moda antiga e te cobrar determinadas atitudes. Vou querer surpresas, paciência, compreensão, dedicação, determinação, que saiba ler nas entrelinhas e ver que algumas vezes, na hora da raiva, quando eu disser "não precisa mais vir" ou "eu não vou mais", será na verdade um pedido sincero de "por favor, tenha uma atitude vigorosa e carinhosa e me contrarie nesse momento, pois estou inconscientemente testando até onde você aguenta lutar por mim e eu quero MUITO que VOCÊ venha atrás de MIM". Eu vou acabar sendo chata as vezes, eu vou erroneamente esperar atitudes que não sei se poderá me oferecer.

Quando eu fico me perguntando e te perguntando de alguma maneira essa questão da constância, quer dizer que eu quero ter certeza das coisas para não machucar novamente esse órgão cheio de corpos venosos que fica alocado do lado esquerdo do peito. No fundo as questões mais íntimas e peculiares da raça humana começam e terminam passando pelo mesmo citado. Sei que estou te cobrando e as vezes paro pra pensar se não estou exagerando e correndo riscos de a longo prazo colocar as coisas a perder, mas ao mesmo tempo não fico em paz se me privo de colocar pra fora o que estou sentindo. Quando você me diz certas coisas sobre "esperar para ver como fica antes de já sair me vendo direto", me deixa com um misto de incertezas, uma ponta de admiração por sua maturidade que desponta e ao mesmo tempo receio que lá na frente você veja tudo isso como passatempo de aprendizagem que vai embora junto com a fumaça, o ar líquido.
Não vou ficar aqui fingindo que essas palavras não são para você porque são, e se eu não puder falar tudo o que eu sinto rasgadamente aqui, num lugar que leva o meu nome, vou poder falar aonde? Pras paredes? Pras amigas, que vão me ajudar, dar carinho, mas irão dizer que não posso deixar ninguém saber disso pois não se deve mostrar esses pensamentos? Aqui é o meu lugarzinho nesse organismo vivo enorme que chamamos de mundo e eu me sinto em casa para dizer tudo que eu penso, e da melhor maneira que sei: Com as palavras.

Que as mesmas sejam úteis a quem passar, ler e se identificar, de alguma maneira. Que o tempo, o vento e os seus sentimentos me tragam as respostas certas, e que se não for muito, pedir um modesto auxílio celestial ao criador para me trazer as coisas que eu sempre quis ouvir, ler, ver e sentir. E que tire um pouco esse bichinho que pede pra ser alimentado dentro de mim, chamado ansiedade, e que me faz estar aqui agora precisando escrever tudo isso. Oras senhor, seja benevolente, afinal são relatos sinceros e pedidos conscientes.
Eu prometo. ♥