domingo, 11 de janeiro de 2015

Carta para Isabel

Eu sei que você tem um tempo para estar aqui, e que depois vai pegar um voo sem volta. Sei que vai para um lugar melhor, e de lá de cima ficará observando todo o movimento aqui de baixo. Sei também que tem muita coisa que não conversamos direito e que não sei mais se dará tempo pra conversar, então decidi escrever aqui, nesta carta, assim você poderá ficar sabendo de tudo, de um jeito ou de outro.

É muito estranho saber o "prazo de validade" de uma pessoa, pois isso te faz pensar que o tempo não é suficiente, você fica preso a uma tensão sobre o que vai ou não acontecer, e principalmente quando, já que isso precisa ocorrer. O mundo está acontecendo, as pessoas a sua volta estão vivendo e de alguma forma meus pensamentos acabam ficando meio presos nisso, mesmo com momentos de breve distração. Acho importante dizer isso. Eu estou sendo obrigada a lidar com esse tipo de situação e ainda estou me situando, e sei que escrever vai (como sempre) me ajudar a organizar minha mente, sempre tão desligável.



As vezes estou esperando demais das pessoas e das situações da vida, e quando as mesmas não ocorrem como espero acabo me decepcionando, e sei o quanto isso não é nada bom. Espero conseguir com a maturidade da vida e o tempo resolver logo isso.

Saiba que nunca vou esquecer de todas as coisas importantes que aprendi com você. Todos os livros, exposições de arte, museus, cinemas, teatros. As idas a casa de chá do CCBB, ao Laura Alvim, ao Estação e na Travessa. Na Prefácio.

Me lembro de crescer achando que sou esquisita por ter ido desde cedo em todos esses lugares diferentes que por mais que adorasse, sempre fizeram com que eu fosse tachada de "nerd" e "estranha" na escola, até porque isso fazia de mim diferente mesmo. A gente precisa deixar o tempo passar para junto levar essas bobeiras naturais da adolescência e perceber o quanto eu me tornei uma pessoa melhor por ter essas diferenças. Eu devo essas descobertas a você, e com certeza sou muito agradecida.

Aprendi também um pouco de francês, regras de etiqueta a mesa e a apreciar coisas de paladar fino e delicado, como Madelaines (Lembra daquelas da Latteria Bloise? Ainda são deliciosas e fresquinhas).

Por aqui eu acho que as coisas vão continuar confusas, nesse mundo louco que vivemos. Sei que você viu muitos acontecimentos desde os anos 50 e passou, dentre outras coisas, pela ditadura e que pouca novidade te surpreende, mas acredite, apesar de amar meu país e esse planeta azul, tenho medo do que nos espera no futuro. Será que esse lugar será bom de se viver e criar filhos?

Quero que saiba também o quanto me sinto grata por ter sido tão incentivada por você e pela querida Marina Martinez (Outra saudade profunda) a ler e amar os livros, afinal isso me fez crescer e escolher trabalhar com eles, ou ao menos tentar estar o mais perto possível de algum lugar cheio deles. Também estou me descobrindo uma admiradora da educação (o que inclusive me faz pensar em tentar uma nova profissão em paralelo, a pedagogia, mas o ano só está começando e eu ainda vou ver o que será possível ser feito.) e seus projetos, e sei o quanto era importante para você pensarmos formas de melhorar o acesso de crianças e jovens a leitura e cultura, e eu estou descobrindo que também acredito nessa causa.

O tempo passa rápido demais e quando tomo consciência de que não podemos agarrá-lo com as mãos fico um pouco nervosa. Isso se chama ansiedade, e eu espero também melhorar isso em mim, pois é o tipo de coisa que me faz querer correr mais do que as pernas e acaba fazendo que me canse mais rápido que o esperado por algumas coisas da vida, e sei o quanto você me diria para aprender a esperar.



Sei que nesse momento você se encontra "fora da área de cobertura", as vezes se esquece de mim e das outras pessoas, que está aos poucos se desligando dessa atmosfera, e como disse Tia Helena, talvez seja melhor assim para que você não sofra.

Agora você está viva, e por favor, não pense que quero "te matar", mas já que tenho que aceitar seu tempo curto e limitado por aqui, quero ir lidando com isso aos poucos, devargazinho, pra tentar amenizar ao menos 10% do que eu sei que vou sentir quando o dia de não te ver mais chegar. Meu coração está em frangalhos, não posso fazer nada para te ajudar, você é uma das pessoas mais próximas que tenho na vida e por mais que as vezes alguém tente me ouvir e ajudar (o que também sou muito agradecida), é muito complicado aceitar tudo isso e esquecer. Na verdade é impossível de esquecer, penso nisso em vários momentos do dia, é desesperador.

Se eu pudesse tirar sua dor de lá de dentro do seu corpo, de alguma forma eu o faria, não tenha dúvidas. Mas infelizmente tudo o que posso fazer é te ver e escrever como me sinto. E tentar não ficar tão presa na minha "bolha do pensamento" (que sempre vem, mesmo quando não quero), como sempre fiquei de um jeito ou de outro a vida toda, pois sei que isso me faz perder alguns momentos da vida que está acontecendo a todo momento.

Eu teria muito mais a dizer, mas sei que estou me alongando mais do que devo. Que nós saibamos aproveitar esses últimos dias da melhor forma possível. Sei que Deus está com os braços abertos para você que vai e para nós que ficaremos, e precisaremos muito dele para seguir em frente.

Um beijo, e saiba que nunca vou te esquecer.

Fab

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