quinta-feira, 21 de maio de 2015

Carta a um Fugitivo

Caro Fugitivo,

Alguns dias se passaram, e hoje sei que como no filme "Uma Noiva em Fuga", as vezes as pessoas fogem muito mais por fobias do que por uma situação de perigo. Posso estar errada, mas tenho a impressão, aqui dentro, de que foi o seu caso.

Tudo bem, você não gostou mesmo e tal (não acredito quando diz que "gostou muito". Você sabe o porque), talvez tenha sido só uma aventura divertida. Desculpe, é que eu não sei jogar devido ao meu (errôneo) jeito autêntico de ser. Não podemos obrigar ninguém a ter sentimentos, eu ainda tenho alguns pressentimentos e sensações estranhas, mas há de se respeitar o espaço do outro.



Em todo caso, acho que precisava dizer algumas coisas, e como sei que não vou bater a sua porta, mandar essa carta ou coisa parecida, vou fazer o que sei fazer de melhor, que é escrever no meu espaço, no meu diário ocasional.

Eu realmente acho que não deu nem tempo da gente se conhecer direito, e independente de qualquer rumo acho que seria uma oportunidade e tanto, por isso decidi reunir alguns fatos sobre mim e que agora você nunca mais irá saber, mas que ainda assim são super importantes (para mim):

Fatos aleatórios sobre mim que você nunca mais irá saber - A lista

- Eu AMO Rap (Mesmo, de verdade, meu sonho é conhecer o Emicida, o Projota, o Mano Brown e o MV Bill. Ah, e o Marcelo D2 também. Inclusive sei que quase ninguém espera isso de uma garota, mas enfim)
- Uma vez meu pai me esqueceu no play do prédio da minha tia e o porteiro foi me levar de volta até lá. Eu tinha 5 anos e ele estava assistindo o jogo do Flamengo. Ele não lembra, mas eu nunca vou esquecer.
- Já tentei descolorir o cabelo sozinha em casa e ele ficou da cor de Fanta Laranja, fui a farmácia de Boné e comprei uma tinta para resolver.
- Eu nunca fui engessada pois nunca quebrei nenhuma parte do meu corpo
(em compensação, tenho o recorde de visitas ao centro ortopédico, devido a todas as incontáveis tendinites)
- Tenho medo de morrer
- Minha musa inspiradora e modelo de como ser uma mulher elegante e chique é, sempre foi e sempre será Audrey Hepburn
- Bonequinha de Luxo é um dos meus filmes clássicos favoritos, junto com O Piccolino, de Fred Astaire
- As duas grifes desejo da minha vida são Tiffany and Co. e Louis Vuitton. Se eu conseguir até o fim da vida ter ao menos um ítem original de cada uma ficarei imensamente feliz.
- Na verdade eu sonho em casar, ter filhos e noivar com um anel de brilhantes da Tiffany. Mas, na melhor das hipóteses, fico feliz com alguma aliança ou anel, o que importa é a intenção sincera e o amor que será carregado ali.
- Minhas viagens dos sonhos são Paris, Argentina, Inglaterra, Portugal, NY, Disney (sim, eu separo a Disney do resto), Itália, Japão, Grécia, os jardins de Amsterdam (Sim, só os jardins mesmo)
- Eu AMO flores, sou apaixonada. Meu sonho é ganhar um pouco delas, lindas e frescas, no momento certo, do cara certo. Vai fazer com que me sinta ainda mais especial. 
- Amo Pugs, amo, amo, amo. Ainda vou ter um.
- Poucas coisas na vida me fazem ficar tão calma quanto um brigadeiro. O único problema é que eu sempre largo a panela no meio.
- Tenho o desejo oculto (agora acho que não mais) de ser entrevistada pelo Jô ou Marília Gabriela.
- Falo sozinha quando estou sozinha. E sinto vergonha quando me pegam no flagra
- Eu danço sozinha em casa quando ninguém está vendo
- Minha cafeteria favorita é a Starbucks, sempre, sempre, sempre.
- Eu amo papelarias e canetas, sou capaz de gastar muito dinheiro com isso (se não me controlar)
- Tenho a fantasia oculta de morar em uma livraria
- As vezes me imagino vestida de noiva
- Quero aprender a tocar guitarra e bateria
- Gosto de Doritos com Nutella (Aliás acho que Nutella vai bem com tudo, tudo mesmo. Entenda como quiser)
- Quando tinha 13 anos detestava meus primeiros óculos, eram parecidos com os do Harry Potter só que maiores e sem a armação grossa. Minha mãe os escolheu.
- Já fiz trabalho voluntário com crianças em orfanatos. O amor delas foi o mais sincero que recebi na vida.
- Amo glitter, amo. Oncinha, zebrinha e dourado também. Mas cada dia tenho menos oportunidades de usar
- Adoro skate, surf e street dance. Não sei fazer absolutamente nada disso.
- Coleciono canecas
- Meu maior sonho é ser plenamente feliz, isso é piegas mas é a verdade mais pura do meu ser
- Não sei mentir, mesmo, e isso é um problema as vezes.
- Já tomei ocasionalmente Rivotril. Pensei em fazer isso esses dias, mas hesitei.
- Gosto de cozinhar pães e bolos. As vezes dá certo, as vezes não.
- Eu desenho, pinto, escrevo e adoro um origami
- Tenho medo de viajar sozinha, mas preciso superar isso

Existem mais uma porção de fatos, mas ficaria a vida toda para poder contar todos. Sei que nunca vou saber seus sonhos e aspirações, se dançaria no seu casamento, qual a maior loucura que já fez/faria ou se escalaria uma montanha. Por algum tempo vai ser estranho saber que nunca mais todas essas promessas de troca se concretizarão. Dizem que a palavra nunca é muito forte, mas acabo só sabendo usá-la. Sou uma pessoa que trabalha com fatos. A vida me obrigou a ser assim.

O que eu gostaria ou deixaria de gostar não conta mais, não vou ficar falando, sei que você não tem o mínimo interesse, hoje acho que um dia vou entender o que leva um fugitivo ser um fugitivo.

Eu optei por não tentar mais adivinhar o que vai me acontecer. Normalmente quando eu já estou meio lá, meio cá, as coisas me acontecem muito do nada e super rápido, dai meus amigos começam a perceber que tem algo diferente e ai vem as perguntas. Quase sempre é assim.

Não consigo desejar mil coisas, mas desejo que fique tudo bem e que você não morra. Na verdade em situações como essa fico torcendo para que aconteça para o outro algo do tipo uma promoção para outro país. Tudo ficaria muito mais fácil para todos nós.

Sei que nunca vai ler isso, mas fico em paz de saber que falei o que pensava, como sempre.

Isso ainda vai me levar a algum lugar, ou não.

Fabiana

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sobre trabalho e ócio.

Quando passamos muito tempo fora de casa, imersos em trabalho, aprendemos a dar valor aos pequenos prazeres. Sim, aqueles mesmos que você desprezava nos seus momentos de profundo ócio.
Chegar em casa e desejar do fundo do coração que a comida venha voando da cozinha até seu colo vira algo justificável, porque você está cansada e quer um pouco da deliciosa tranquilidade de não fazer nada.
Os italianos chamam isso de "dolce far niente", ou em bom português, o "doce fazer nada", ou ainda "o doce ócio", em tradução livre. É disso que precisamos em nossas horas vagas, um dolce far niente, para aquietar a alma e adoçar o coração. Quanto mais eu vivo, mais aprendo a apreciar os detalhes, dos quais, passo uma vida prezando. 
Ler um livro, ouvir uma música, se esparramar na cama, sozinha ou acompanhada, fazer as unhas, ler uma revista útil ou inútil, fechar os olhos e sentir cheiro de planta, de terra, de chuva, de vento. Apreciar o silêncio, que as vezes é tão incômodo mas pode ser tão restaurador. Colocar a roupa para lavar e só ouvir o barulho da velha máquina e dos carros passando lá fora.

Hoje trabalho no meio executivo, tenho que tomar muitas decisões todos os dias, montar estratégias, criar coisas, "ler" as pessoas e planejar maneiras de falar melhor com elas. Preciso regular a máquina na quantidade de água certa, preciso fazer contas, almoçar no mais delicioso e caro ou no mediano barato? Fazer uma previdência privada ou investir para um apartamento? Nosso cérebro é uma ferramenta maravilhosa, mas como qualquer máquina pode ficar cansada, Não sou diferente.
Apesar disso, sinto muito prazer no meu trabalho pois o ócio cansa e enferruja. Nunca mais somos iguais depois de experimentar o sabor do labor, isso oxigena nossas cabeças, refresca nossas idéias. Dê valor ao seu trabalho, por mais que a gente se esqueça de todo esse discurso as 7 da manhã.
Quando você experimenta os dois lados da moeda, vai saber depois qual deles escolher. No meu caso venho experimentando doses cavalares de endorfinas quando um projeto dá certo ou uma peça é aprovada. Acho que isso é ser workaholic, um termo para algo como "fanático por trabalho". Eu amo meu ofício, foi o que escolhi para mim, e de alguma maneira, por mais que precise de um pouco de dolce far niente, é só um pouco, porque creio que quando for demais o alerta trabalho logo apitará aqui dentro.
Fechar os cadernos, deixá-los no trabalho, pegar o longo caminho até a casa, abrir com a chave, me esparramar no sofá, ligar a tv, checar o whatsapp, desejar que a comida venha voando.
Work, eat, sleep, repeat.

sábado, 11 de abril de 2015

O Dia em que senti alívio

Uma manhã de sábado comum, acordei cedo e fui trabalhar. Um banho normal, um café pingado, com o mesmo adoçante de sempre, normal. O velho All-Star rosa Pink, a bolsa de claquete, nos fones, rádio cidade.
Pego meus óculos e ganho a minha normal rua, da qual já estou acostumada, e desde que regressei, cada dia procuro uma nova beleza para admirar.

De repente, sem querer, paro e percebo que estou conseguindo ouvir a Rádio que há séculos amo, sem sentir um desconforto no coração. Simplesmente ouço e pronto. Ontem a noite estive numa festa na Freguesia, algumas lembranças, é claro, tive medo de não aguentá-las, mas ai percebi que além de conhecer os caminhos melhor do que imaginava, cheguei, permaneci e fiquei muito bem. Comi, bebi, conversei, ouvi a música e depois do clássico "parabéns" fui embora. No caminho de volta, silêncio e contemplação. Tranquilidade.

Finalmente quando paro e junto esses fatos, percebo como numa revelação divina que não estou sentindo dor, e isso traz uma sensação tão maravilhosa de júbilo e paz interior! Sinto vontade de cantarolar bem baixinho, só pra mim, uma música qualquer, admirar o sol das 15h batendo na rua mais linda e bucólica de Botafogo, ir na cobal e encontrar os velhos conhecidos na fila do pão, reclamar da Dilma, da crise, falar da vida e sem aquele peso do "- Tudo bem?" "- Estou levando". Não! As coisas não estão perfeitas, ainda falta a tal estabilidade financeira, ainda faltam oportunidades, mas ainda assim, está tudo bem!

Evidente que muitos momentos de altos e baixos, TPMs, carências naquele sábado a noite em casa e tantas outras sensações ainda virão. Sei que as lembranças e os sentimentos existem e não serão apagados de minha mente, mas ainda assim, lembro de quando uma pessoa me disse que "Cada dia dói menos". É claro que parece óbvio, mas quando estamos no meio de emoções, não conseguimos enxergar a luz no fim do túnel, e por conseguinte acreditar que essa dor vai estagnar, cicatrizar.

No réveillon cai no chão e machuquei minhas duas mãos. Feriu, sangrou, ardeu, levantou pele. Por uma semana sentia incômodos toda vez que batia água ou produtos de limpeza ali, até o sabonete do banho fazia arder, foi horrível. Achei que não fosse aguentar, que fosse demorar a passar, e ainda por cima tive medo de complicações por uma possível não cicatrização. Dez dias depois começou a melhorar, e foi doendo menos e menos até as cascas caírem e apenas uma cicatriz feinha ficar no lugar e enfim conseguir fazer as coisas normais sem sentir dor ou incomodo algum. Hoje em dia eu olho e vejo só uma marquinha muito fraca, quase apagada, mas que serve para me lembrar do momento e que não devo correr com o chinelo que estava usando nesse dia, para não tropeçar de novo.

Lembrando dessa história tão banal, vejo que os rompimentos, términos, despedidas, demissões e tantos outros acontecimentos que simbolizam um fim e nos marcam são como esse machucado. O processo é exatamente esse, sem tirar nem por. Sentimos a inesperada dor, achamos que não vamos suportar, sofremos, choramos, reclamamos para todos a nossa volta, evitamos coisas que possam nos fazer lembrar desse momento, as vezes sentimos um pouco de pena de nós mesmos até, não queremos nos levantar e abrir as cortinas. Cada dor define a intensidade desse processo. Mas ai, de repente, quando aquelas sensações ruins parecem já fazerem parte de nossas vidas, finalmente percebemos que as coisas estão melhores do que imaginamos. Nos sentimos um pouco mal as vezes, mas ao mesmo tempo bem, até o dia em que as cascas começam aos poucos a cair, até só sobrar a cicatriz.

Nesse momento entendi que estou com minhas cascas começando a se soltarem, sei que ainda tenho algumas barreiras a vencer, e que depois ainda virá o maior desafio,o de lidar com a cicatriz e lembrar que novas experiências não necessariamente irão me ferir da mesma forma e que por isso não deverei evitá-las. Mas sei que de alguma forma vou aprender a lidar com ela, será mais uma para a coleção das várias que carrego, e sem dramas, pois elas fizeram de mim quem sou hoje, moldaram meu caráter, experiências, minha história.

Enfim, admitir esse tipo de coisa é tão calmo e restaurador, me faz ficar em paz. A cada pequena percepção como essa, enxergo uma vitória e me sinto mais forte, restituída. Agradeço a Deus pelo júbilo, pela pequena alegria que muda meu dia, e peço para que essa sensação não se acabe nos próximos dias. Os desafios vão vir, alguns vou enfrentar prontamente, outros irei hesitar até aceitar e sentir isso é tão humano. Nos permitir viver assim é o verdadeiro sentido da existência.

A dor vai ser menor até passar, está melhorando, estou melhor. Esse é o dia que enfim senti alívio por viver.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Carta ao querido estranho.

Querido Estranho,

hoje te chamo assim porque não somos mais nada, e sei que não seremos amigos, então não consigo encontrar outra forma de dizer, ou nomear. Estou passando por momentos de profunda reflexão, e nesses vejo o quanto tenho coisas a dizer, mas também não irei lhe procurar para tal, até porque não ficaria bem para mim. Tenho certeza de que nunca irá ler essas palavras, mas em todo o caso creio que isso me trará um pouco de paz interior.

Na minha caminhada até aqui, vejo o quanto estou aprendendo da pior forma possível todos os conselhos que deveria ter seguido antes. Estou revendo minha vida e percebendo o quanto abdiquei da mesma para viver a sua, o quanto minha inexperiência amorosa fez com que me deixasse envolver "até o pescoço" nessa história, num nível que fui do deslumbre ao desastre. Me entreguei demais, e deixei as coisas irem numa desproporção incrível, e que desgastou essa história. Eu achei que tentando controlar tudo iria estar sempre segura, quando na verdade isso era apenas uma ansiedade descontrolada e que não me levou a lugar nenhum. Se uma pessoa tiver de te deixar ou fazer algo ruim, irá fazer, independente de você achar que tem a previsão de tudo.

Não adianta esperar que as pessoas mudem o que são para ser o que esperamos. Você sempre foi duro, individualista, ambicioso, detestava momentos românticos demais e a sós, bem como comemorar aniversários de namoro, amava coisas que me incomodavam profundamente, carregava coisas do seu passado (por mais que não admitisse) que influenciavam a forma de se relacionar hoje.
E eu achei que poderia te mudar, te fazer alguém mais doce, romântico, sensível, e que fosse capaz de abrir mão de algumas coisas pelo outro, mas isso foi um erro. As pessoas só mudam o que querem, e quando querem.



Aprendi também que não vale a pena mendigar e implorar por atitudes e coisas que o outro não pode te dar, tampouco ter medo das outras pessoas que passaram pela vida dele antes de mim, pois nada disso fará as coisas mais fortes ou ficarem da maneira que eu sempre desejei. Quem passou por nossas vidas deixou coisas e nos tirou outras. No mais, ou aceitamos o pacote que nos entregam ou devolvemos ao destino. Não existe PROCON pro coração.

Entendi também que ninguém te o direito de falar mais alto que eu ou me empurrar, nem mesmo numa discussão. Que não devo ter medo de perder o outro e ai deixar de argumentar nesses momentos. Se depois a pessoa nos virar as costas, azar. Não podemos nos anular diante do conflito, mesmo que esse seja com quem temos algum sentimento.

Também não quero mais em dia nenhum deixar de fazer pequenas coisas em minha aparência, bem como achar que o outro não deve fazer. Cada um é dono de seu corpo, e devemos nos amar pelo o que temos a oferecer.

Sei que ficou aliviado quando saí de casa e feliz quando soube que me envolvi com outra pessoa. Essas coisas me fazem ver que na verdade você não me amava mais, e me pergunto até onde me amou, se me amou mesmo. Mas ao mesmo tempo sei que isso é inútil pois não terá resposta, e mesmo que houvesse, não sei se faria diferença.

Dizem que "um amor se cura com outro", e essa é a maior bobagem que alguém falou. Amor de verdade não passa assim, de uma hora para outra. Você pode gostar bastante de alguém, de sua companhia, se deixar envolver, ter tesão, fazer sexo, mas amar é difícil nesse caso. Por ventura, me permiti, e não me arrependo, foi bom enquanto durou e acrescentei mais um ponto em minha história, ensinei e aprendi, mas hoje sei que isso só serviu para amenizar temporariamente as coisas pois hoje aceito para mim mesma que estou em "quarentena amorosa" e que adiei tudo o que estou sentindo agora. Me divido enfim em raiva pelas coisas ruins e lembranças das coisas boas, nada mais e nada menos do que uma avalanche de emoções, recordações e conclusões.

Hoje entendi que temos objetivos diferentes na vida, eu sonho em casar, ter filhos, ser uma profissional de sucesso fazendo algo que não é tido como item fundamental em nossa sociedade. Você sonha em sair do país e fazer fortuna, sem filhos e com uma mulher desapegada e com uma profissão estável. Você quer um amor amigo, e eu, um amigo amor. Amor amigo é aquele que coisas com intimidade é algo secundário, onde se tem um desprendimento enorme de ciúmes e conceitos.
Um amigo amor tem uma sintonia enorme com você, te leva pro seu mundo e se deixa levar pro seu, vocês se desdobram para combinar todos os momentos, em coletivo e só vocês dois. Vão ajustando seus objetivos em prol de um caminho comum.

Entendi ainda que preciso dar mais atenção aos meus projetos pessoais, a minha saúde, meus hobbies, as coisas que amo fazer, os filmes e livros que amo ver e ler, a mim mesma por um todo, pois ninguém admira quem abre mão de si pelo outro o tempo todo. Que o outro também precisa de um tempo as vezes. Que ciumes não prende ninguém e nem é garantia de nada, ao mesmo tempo que todo mundo gosta de saber que o outro luta um pouquinho por nós, nem que seja as vezes, só para nos impressionar. Mas que lutar demais também é desespero.

Se alguém não está na mesma sintonia, não adianta forçar, alguma hora o barco afunda e não haverá a cola certa para fechar os buracos, e ai quem não tiver um bom bote salva vidas bebe água.

Eu sou uma romântica, sentimental, poeta, cronista, blogger, designer, diagramadora, "sincericida", e "calculadora em dedos" incorrigível. Ou essas coisas ainda vão acabar comigo, ou quem sabe me levarão a algum lugar.

Essas respostas eu nunca terei, bem como a certeza de que nunca mais nos veremos, mas as palavras sempre me trazem acalanto. Essa temporada vai passar, essa chuva vai estiar, eu vou conseguir ficar menos desconfiada com o outro em algum momento do futuro e vou continuar a reescrever minha história. A você, desejo tudo de bom, e que seja capaz de rever seus erros e entender essas palavras se elas um dia chegassem a ti.

Talvez eu me arrependa em me expor dessa forma, mas ainda não aprendi ser de outra forma.

Essa densidade e esses sincericídios ainda vão me levar a algum lugar.

Fabiana.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Eu, Jovem, Diabética.

Hoje fazem 1 ano e 4 meses que fui diagnosticada com Diabetes tipo 2. Esse dia foi estranho, mas significou a longo prazo muitas mudanças e a constatação de que nada na vida é por acaso. Sei que parece óbvio, mas acredite, não é tanto assim e eu vou chegar lá.

A parte mais difícil é mudar seus hábitos convivendo em sociedade. Cheguei a conclusão de que é como ser um ex alcoólatra, você tem que ver todos fazendo uma coisa que é socialmente normal porque eles podem e você não, simples assim. E sinceramente? Ninguém gosta de se sentir excluído do "clubinho dos prazeres" (e por favor, quem não vê prazer em, por exemplo, um petit gateau ou doces em geral deveria procurar ajuda psiquiátrica, rs).



Isso tudo se agrava quando se é jovem, afinal todos pensam que você tem o tipo 1 (isso é, quando sabem fazer a diferenciação, a tendência geral é que todos acham que é só "dar uma canetada de insulina na barriga e é nós Queiroz", quando é bem mais profundo do que isso.) ou simplesmente tiram conclusões estapafúrdias do "porque você tem diabetes tão novinha" ("Ah, comeu muito doce né?" ou "Gordo é assim mesmo, não faz um exercício ai já viu". A lista é interminável caríssimos...). Em suma, o que me resta é conviver com as especulações e ter respostas sensatas e prontas (Ou as que eu realmente gostaria de dar em alguns casos mas não posso, tipo, "Eu curto um sofrimento voluntário, é, é isso ai.", "sabe como é, na minha última visita a fábrica da Garoto eu super surtei e tal", "Na verdade eu costumava colocar a boca na saída do sorvete de baunilha do Mc Donald´s ao invés de pegar na casquinha igual a todo mundo". Sim, eu tenho uma imaginação fértil...).

Na verdade eu tenho diabetes pois meu pai e meus avós paternos são todos portadores do mesmo mal crônico e do mesmo tipo. Eu já portava essa predisposição em meu DNA e ela escolheu desencadear aos 22 anos.

Hoje em dia existem muitos produtos de ótima qualidade no setor Diet/Light/Zero, porém nem todos estão sempre disponíveis nas prateleiras de qualquer supermercado, os preços são abusivos, eu me torno refém das lojas de produtos naturais e a não ser que eu faça um estoque desses produtos em casa, não posso me dar ao luxo de desejar comer do nada um brigadeiro por exemplo, pois as mesmas fecham cedo normalmente (especialmente aos sábados). Isso torna atividades simples e frugais como degustar um docinho num final de semana a noite um grande desafio algumas vezes.

Ah, sem contar sobremesas na rua! Convencidamente os restaurantes e lanchonetes (em sua maioria) não estão prontos para oferecerem algo a mais que um pacote de chiclete sem açúcar no caixa. As grandes marcas populares de sorvetes (Nestlé, Kibon) não tem um portfólio muito extenso de sabores, especialmente nos picolés. No fim você se rende a outras marcas deliciosas (La Basque, Sorvetes Itália), porém caríssimas e difíceis de serem encontradas corriqueiramente. De modo geral, eu dou pulos de alegria quando vejo mais do que 2 opções diets fora de lojas com a extensão "verde" no final do nome (Aqui no RJ tem uma casa de doces chamada "Torta e Cia", fica no Humaitá e tem uma torta de brigadeiro e um pudim de leite, ambos diets, e são de comer rezando, não tem gosto de adoçante. Enfim, eles tem o poder de fazer a minha tarde mais feliz num final de semana qualquer, rs)

Vivemos num país onde a atenção aos produtos diets é ainda restrita e com uma propaganda muito voltada para a 3a idade, pois a ideia de uma pessoa jovem ser diabética parece ser algo socialmente inaceitável.

No mais, o mundo continua cheio de coisas doces sendo lançadas e propagadas todos os dias e quase sempre sem pensarem ao menos uma ou duas opções numa versão sem açúcar. Evidente que todo mundo tem seus dias de glória e de perda, e são nesses dias que me rendo as doces tentações. O que em alguns casos é perdoável, de acordo com a nova Endocrino (em quantidades moderadas e ocasiões sociais/festivas), mas ainda assim deve se vigiar, muito. Tenho noção de todos as perigosas consequências que um Diabetes mal cuidado pode trazer, e quero de alguma maneira policiar mais meus instintos afim de evitá-las.

Apesar de tudo, sei que ganhei muito com essas mudanças forçadas. perdi uma quantidade significativa de peso, hoje penso mais nas quantidades de certos alimentos, dou valor a coisas simples que antes eram corriqueiras no meu cardápio cotidiano e passavam desapercebidas, e principalmente entendo melhor a importância de cuidar dessa máquina fantástica e única que é o nosso corpo!

Continuarei reclamando e lutando dentro do que posso por melhorias no cotidiano diabético, além de procurar conscientizar as pessoas ao meu redor de como o diabetes é algo normal, que não deve ser digno de pena ou alvo de piadas (pasmem, existe preconceito em alguns casos), que nem tudo se resume a um tipo ou diversos, só existem 2 e já está de bom tamanho.

Se você é jovem, não tenha vergonha de comentar socialmente que é diabético, quebre os paradigmas e preconceitos, e seja um elo na luta para um mundo aonde isso seja tratado com naturalidade.

No mais, um dos dias mais felizes será quando eu olhar numa prateleira de supermercado e vir uma versão diet de Oreo ao lado da normal. :)

domingo, 29 de março de 2015

O mito do lenhador romântico

O lenhador romântico é aquele que ao final da lida sempre volta para casa com o coração inicialmente aos pulos, e depois calmamente feliz. Mãos ásperas da labuta, corpo cansado, vestes sujas. Tudo que ele deseja é um bom banho, uma roupa confortável e limpa, e enfim, estar com sua amada.

Não importa quantas árvores tenha derrubado com seu machado, quanto peso carregou, quantos gritos deu com seus subordinados ou quantos ouviu de seu chefe, a maior espera no caminho de volta é ouvir aquela voz e sentir aquele perfume pontual que o faz sonhar acordado.

No momento de retorno ao lar, o resto é o resto, o que importa é o conforto, o aconchego, o barulho abafado da tv, o cheiro da comida fresca e o abraço apertado que parece um ninho, de amor e proteção desse mundo tão atribulado e exigente.

Da porta para fora ele precisa ser forte, sisudo, as vezes até meio rude para ser ouvido, mas sem nunca perder a educação e o senso de justiça. Ele é um leão na luta selvagem pela sobrevivência e pela vida. Porém, da porta para dentro ele finalmente pode se despojar dessa armadura cansativa e ser ele mesmo, sem amarras ou receios.



Ele pode ser sincero sobre seus sentimentos, um pouco sensível até. Pode rir de gargalhar, pode demonstrar carinho, sorrir e assobiar uma velha canção. Pode olhar bem fundo nos olhos de sua mulher, deixar uma lágrima de emoção rolar, demonstrar carinho e beija-la com o ardor que só os apaixonados conhecem.

O lenhador dá o melhor de si para quem merecer, mas estes são poucos. Ele sabe ser um amigo fiel, um bom filho e um companheiro devotado. As vezes colhe tulipas frescas no jardim do caminho, noutras um bilhete de bom dia com uma xícara de café e biscoitos ao sair para trabalhar antes da primeira aurora. Ele conhece os gostos de sua amada de cor, e 7 dias antes de seu aniversário lhe deu um lindo vestido longo azul turquesa. Dela, arrancou um sorriso, lágrimas contidas de emoção, um "muito obrigada" e muitos, muitos beijos e carinhos. Nele, havia uma grande explosão, peito em festa, um turbilhão de emoções, essas coisas boas e bonitas que só se sente perante um grande amor.

O lenhador romântico pode existir, ou ainda ser um mito criado por mim (por isso o título), isso nunca saberemos. Para muitas mulheres no mundo, ele pode ser um ideal de vida, mas nada que idealizamos demais costuma dar certo. Na dúvida, fique com o parecido a descritiva.

Se você, homem, em algum momento se sentiu como o lenhador, por favor, não deixe que isso morra dentro de ti, pois permitir essa morte é sepultar seu lado mais doce e que com certeza fará alguma mulher muito feliz. Seja forte para o mundo e conserve o mel do fundo para todos que guarda em seu coração que as vezes é feito de lar para que essas pessoas possam gentilmente habitar.

domingo, 22 de março de 2015

Sobre perdas e as últimas horas - Uma carta com dor e amor.

Você se foi as 18:45. Foi tudo tão rápido, como um sopro, ou um respiro. Os médicos disseram tudo com palavras suaves e dando voltas. Nesse momento eu entendi o quanto a vida é efêmera, e como estou vivendo um processo de perdas em série.
Perdi namorado, perdi trabalho e agora perdi você. Você, minha tia querida, que fez parte da minha vida, que me ensinou coisas maravilhosas sobre os livros, sobre etiqueta, sobre cultura, sobre artes e sobre a vida. Me ensinou com conselhos e com seu exemplo, sua vivência nos últimos tempos, quando estava sendo rapidamente vencida pelo relógio do final da vida. Quando recebi a notícia de que tinha apenas algumas horas mais, me senti como numa "expectativa do horror", pois é uma espera que não passa. Cada minuto vira uma eternidade e esse tempo vai nos consumindo até os ossos.
Nessas horas, desde sábado a noite, fiquei lembrando de mil coisas. Momentos de minha vida, momentos com você, promessas que me fizeram e não foram cumpridas, momentos com outras pessoas que já passaram e hoje simplesmente não fazem mais parte da minha história. Isso tudo me fez chorar mas ao mesmo tempo só me faz entender mais e mais coisas, uma avalanche de conclusões numa montanha russa de sentimentos, altos e baixos.
Eu errei, acertei e acima de tudo fiz tudo que achava e tinha capacidade de fazer em cada momento. Fiquei lembrando de quando outrem me dizia que estaria comigo quando isso acontecesse, e ai olhei para o lado no tempo presente e vi que não havia ninguém parecido com você ali. Isso me fez ver como nada na vida é para sempre e que não devemos entregar nossos sentimentos e expectativas sobre o outro, pois certamente ele falhará conosco e com suas promessas em algum momento. Entreguei meu melhor, corpo e alma, e tive meu coração esmagado pelo fim de tudo que sonhei, numa noite após a discussão e a agressão mais esdruxúlas da minha vida. Percebi que talvez nada daquilo que foi dito por tanto tempo era verdade, me joguei numa vida que não era a minha com tudo o que eu tinha de mais puro em mim e me vi acordando no escuro e sozinha. Nosso caminho é cheio de surpresas, e algumas delas são pavorosas.
Teve também ainda mais uma pessoa, da qual entreguei algumas esperanças, devido a uma pureza de sentimentos, e também não foi o que esperei. Em você e no seu "amor juvenil" eu esperei encontrar acalanto, amor, amizade, carinho, e em troca te daria tudo o que um garoto poderia querer de um primeiro amor. Algumas falhas operacionais e eu te espremi de um lado, e você arrancou algumas pétalas de mim, de outro, e as jogou ao vento, se deixando levar pelo momento. Sei que se arrependeu, mas hoje entendi que não há volta e essa é a coisa mais certa, quando algo morre não deve haver volta.

Agora, estou aqui tentando aceitar que nunca mais verei ou ouvirei a voz de uma das pessoas mais especiais que tive o orgulho de ter em minha vida, pois ela se foi e agora está junto de Deus.
Tenho a consciência de que lutamos juntas, lado a lado, e passamos por todas as fases. Ambulância, hospital, cadeira de rodas, andador, muletas, fisioterapia, cabelo caindo, rádio, químio, cabelo crescendo, esquecimento, fraldas, seu silencio progressivo, hospital de novo, sua luta com a vida em cada respiração que significava um esforço tão grande, numa tentativa desesperada de existir até o último fio.
Eu vou sempre me lembrar de quando chamava minha avó de "Juju", e fazia um esforço tremendo para convencê-la a se maquiar para ir a missa de domingo. Ou quando me levava a casa de chá do CCBB e pedia o café completo com um quiche para você e geléia de laranja com waffles para mim. Quando tentou me ensinar a chamar o garçon quando eu tinha 5 anos, quando me escreveu diversos cartões em cada aniversário, quando me disse que eu deveria aproveitar o frescor da juvetude e dizia que eu ficava "uma gracinha" de all star e vestido pois "você é jovem e tudo fica bonito numa jovem com frescor". Quando me servia uma madelaine com chá e me dizia que eu tinha muito o que aprender na vida, quando me levou ao Theatro Municipal para assistir "Coppélia" (Um dos ballets mais bonitos que já assisti em toda minha vida), as diversas exposições e idas ao Estação Botafogo e ao Unibanco Arteplex.

Fiquei muito revoltada, pensando no porque estou passando por todas essas coisas ruins de uma vez só, e em tão pouco tempo, mas agora que cada uma delas acabaram eu entendi o porque. Na vida, temos que passar por coisas muito duras para crescermos, termos nossas cascas arrancadas e ai sim florescermos aos poucos.
Há 10 meses atrás eu era uma garota da zona sul que passou por momentos dificeis e trabalhou bastante, mas não conhecia mais algumas partes da vida. Hoje sou uma mulher que conhece várias pontas do Rio de Janeiro, aprendi e estou aprendendo na prática, coisas sobre ter uma casa, responsabilidades ainda mais profundas, dor, amor, prazer e morte.
Eu sou grata a tudo que vivi pois não deixei passar nenhuma oportunidade e não vou ter nenhum arrependimento do tipo "não fiz, como teria sido se eu tivesse feito?", estou combalida e devastada agora, se eu fosse um jardim estaria com minhas árvores derrubadas e flores mortas, mas sei que com o tempo e o carinho sincero de quem me considera e tem amizade por mim, esse jardim vai florescer novamente e eu irei encontrar junto de Deus novas formas de viver e ser genuinamente feliz.
Vou conseguir usar tudo que aprendi, passar por cima desses sentimentos pavorosos e ficar só com a saudade perene e as lembranças dos bons momentos, todos eles. E de você tia, sei que vou levar além de tudo isso sua alma perto de mim, sempre me protegendo e seu coração junto do meu, me abençoando.
Obrigada vida, por todas as lições. Obrigada pessoas que me decepcionaram, pois até com vocês tive ótimos momentos, decepções que me ensinaram a viver e muitas lições, e por último e para encerrar com muita honra, obrigada Maria Isabel Falcão, por ter sido essa mulher forte e independente que me deu carinho e coisas incríveis por toda sua existência. Só terei orgulho de ter sido sua sobrinha. Que a sua luz irradie por todos nós nessa noite de chuva que limpa nossas lágrimas e tristeza, e que prepara o céu em festa para que possa ser recebida por Deus e meu avô, Seu Edgard, de braços abertos e ambos, cheios de amor.

Eu vou te amar para sempre, e esse é um dos amores mais puros que a maldade do mundo nunca irá me tirar

Com carinho

Fabi

sábado, 7 de março de 2015

Eu prometo.

Eu te prometo amor, fidelidade e sinceridade. Te prometo dar tudo que uma mulher pode tentar dar de bom a um homem numa relação, prometo rir, fazer piadas e ironias com o cotidiano, tentar deixar de lado qualquer preconceito bobo ou medinho e tentar ser amiga dos seus amigos, prometo sorrir, dedicar músicas, fotos e beijos. Fazer brigadeiro de colher com granulado colorido num sábado a tarde. Colocar meu melhor perfume nos lugares estrategicamente pensados para te inebriar e seduzir. Prometo te ajudar a escolher a gravata, dançar de um jeito bobo pra te divertir e também a sério para arrasarmos numa eventual pista.

Mas o que nem todos se lembram de deixar claro quando as coisas legais já estão sendo descobertas é o que eu vou acabar fazendo por parte do meu "lado b". Vou ter TPM, ciúmes, vou querer algumas coisas a moda antiga e te cobrar determinadas atitudes. Vou querer surpresas, paciência, compreensão, dedicação, determinação, que saiba ler nas entrelinhas e ver que algumas vezes, na hora da raiva, quando eu disser "não precisa mais vir" ou "eu não vou mais", será na verdade um pedido sincero de "por favor, tenha uma atitude vigorosa e carinhosa e me contrarie nesse momento, pois estou inconscientemente testando até onde você aguenta lutar por mim e eu quero MUITO que VOCÊ venha atrás de MIM". Eu vou acabar sendo chata as vezes, eu vou erroneamente esperar atitudes que não sei se poderá me oferecer.

Quando eu fico me perguntando e te perguntando de alguma maneira essa questão da constância, quer dizer que eu quero ter certeza das coisas para não machucar novamente esse órgão cheio de corpos venosos que fica alocado do lado esquerdo do peito. No fundo as questões mais íntimas e peculiares da raça humana começam e terminam passando pelo mesmo citado. Sei que estou te cobrando e as vezes paro pra pensar se não estou exagerando e correndo riscos de a longo prazo colocar as coisas a perder, mas ao mesmo tempo não fico em paz se me privo de colocar pra fora o que estou sentindo. Quando você me diz certas coisas sobre "esperar para ver como fica antes de já sair me vendo direto", me deixa com um misto de incertezas, uma ponta de admiração por sua maturidade que desponta e ao mesmo tempo receio que lá na frente você veja tudo isso como passatempo de aprendizagem que vai embora junto com a fumaça, o ar líquido.
Não vou ficar aqui fingindo que essas palavras não são para você porque são, e se eu não puder falar tudo o que eu sinto rasgadamente aqui, num lugar que leva o meu nome, vou poder falar aonde? Pras paredes? Pras amigas, que vão me ajudar, dar carinho, mas irão dizer que não posso deixar ninguém saber disso pois não se deve mostrar esses pensamentos? Aqui é o meu lugarzinho nesse organismo vivo enorme que chamamos de mundo e eu me sinto em casa para dizer tudo que eu penso, e da melhor maneira que sei: Com as palavras.

Que as mesmas sejam úteis a quem passar, ler e se identificar, de alguma maneira. Que o tempo, o vento e os seus sentimentos me tragam as respostas certas, e que se não for muito, pedir um modesto auxílio celestial ao criador para me trazer as coisas que eu sempre quis ouvir, ler, ver e sentir. E que tire um pouco esse bichinho que pede pra ser alimentado dentro de mim, chamado ansiedade, e que me faz estar aqui agora precisando escrever tudo isso. Oras senhor, seja benevolente, afinal são relatos sinceros e pedidos conscientes.
Eu prometo. ♥

domingo, 11 de janeiro de 2015

Carta para Isabel

Eu sei que você tem um tempo para estar aqui, e que depois vai pegar um voo sem volta. Sei que vai para um lugar melhor, e de lá de cima ficará observando todo o movimento aqui de baixo. Sei também que tem muita coisa que não conversamos direito e que não sei mais se dará tempo pra conversar, então decidi escrever aqui, nesta carta, assim você poderá ficar sabendo de tudo, de um jeito ou de outro.

É muito estranho saber o "prazo de validade" de uma pessoa, pois isso te faz pensar que o tempo não é suficiente, você fica preso a uma tensão sobre o que vai ou não acontecer, e principalmente quando, já que isso precisa ocorrer. O mundo está acontecendo, as pessoas a sua volta estão vivendo e de alguma forma meus pensamentos acabam ficando meio presos nisso, mesmo com momentos de breve distração. Acho importante dizer isso. Eu estou sendo obrigada a lidar com esse tipo de situação e ainda estou me situando, e sei que escrever vai (como sempre) me ajudar a organizar minha mente, sempre tão desligável.



As vezes estou esperando demais das pessoas e das situações da vida, e quando as mesmas não ocorrem como espero acabo me decepcionando, e sei o quanto isso não é nada bom. Espero conseguir com a maturidade da vida e o tempo resolver logo isso.

Saiba que nunca vou esquecer de todas as coisas importantes que aprendi com você. Todos os livros, exposições de arte, museus, cinemas, teatros. As idas a casa de chá do CCBB, ao Laura Alvim, ao Estação e na Travessa. Na Prefácio.

Me lembro de crescer achando que sou esquisita por ter ido desde cedo em todos esses lugares diferentes que por mais que adorasse, sempre fizeram com que eu fosse tachada de "nerd" e "estranha" na escola, até porque isso fazia de mim diferente mesmo. A gente precisa deixar o tempo passar para junto levar essas bobeiras naturais da adolescência e perceber o quanto eu me tornei uma pessoa melhor por ter essas diferenças. Eu devo essas descobertas a você, e com certeza sou muito agradecida.

Aprendi também um pouco de francês, regras de etiqueta a mesa e a apreciar coisas de paladar fino e delicado, como Madelaines (Lembra daquelas da Latteria Bloise? Ainda são deliciosas e fresquinhas).

Por aqui eu acho que as coisas vão continuar confusas, nesse mundo louco que vivemos. Sei que você viu muitos acontecimentos desde os anos 50 e passou, dentre outras coisas, pela ditadura e que pouca novidade te surpreende, mas acredite, apesar de amar meu país e esse planeta azul, tenho medo do que nos espera no futuro. Será que esse lugar será bom de se viver e criar filhos?

Quero que saiba também o quanto me sinto grata por ter sido tão incentivada por você e pela querida Marina Martinez (Outra saudade profunda) a ler e amar os livros, afinal isso me fez crescer e escolher trabalhar com eles, ou ao menos tentar estar o mais perto possível de algum lugar cheio deles. Também estou me descobrindo uma admiradora da educação (o que inclusive me faz pensar em tentar uma nova profissão em paralelo, a pedagogia, mas o ano só está começando e eu ainda vou ver o que será possível ser feito.) e seus projetos, e sei o quanto era importante para você pensarmos formas de melhorar o acesso de crianças e jovens a leitura e cultura, e eu estou descobrindo que também acredito nessa causa.

O tempo passa rápido demais e quando tomo consciência de que não podemos agarrá-lo com as mãos fico um pouco nervosa. Isso se chama ansiedade, e eu espero também melhorar isso em mim, pois é o tipo de coisa que me faz querer correr mais do que as pernas e acaba fazendo que me canse mais rápido que o esperado por algumas coisas da vida, e sei o quanto você me diria para aprender a esperar.



Sei que nesse momento você se encontra "fora da área de cobertura", as vezes se esquece de mim e das outras pessoas, que está aos poucos se desligando dessa atmosfera, e como disse Tia Helena, talvez seja melhor assim para que você não sofra.

Agora você está viva, e por favor, não pense que quero "te matar", mas já que tenho que aceitar seu tempo curto e limitado por aqui, quero ir lidando com isso aos poucos, devargazinho, pra tentar amenizar ao menos 10% do que eu sei que vou sentir quando o dia de não te ver mais chegar. Meu coração está em frangalhos, não posso fazer nada para te ajudar, você é uma das pessoas mais próximas que tenho na vida e por mais que as vezes alguém tente me ouvir e ajudar (o que também sou muito agradecida), é muito complicado aceitar tudo isso e esquecer. Na verdade é impossível de esquecer, penso nisso em vários momentos do dia, é desesperador.

Se eu pudesse tirar sua dor de lá de dentro do seu corpo, de alguma forma eu o faria, não tenha dúvidas. Mas infelizmente tudo o que posso fazer é te ver e escrever como me sinto. E tentar não ficar tão presa na minha "bolha do pensamento" (que sempre vem, mesmo quando não quero), como sempre fiquei de um jeito ou de outro a vida toda, pois sei que isso me faz perder alguns momentos da vida que está acontecendo a todo momento.

Eu teria muito mais a dizer, mas sei que estou me alongando mais do que devo. Que nós saibamos aproveitar esses últimos dias da melhor forma possível. Sei que Deus está com os braços abertos para você que vai e para nós que ficaremos, e precisaremos muito dele para seguir em frente.

Um beijo, e saiba que nunca vou te esquecer.

Fab