quinta-feira, 21 de maio de 2015

Carta a um Fugitivo

Caro Fugitivo,

Alguns dias se passaram, e hoje sei que como no filme "Uma Noiva em Fuga", as vezes as pessoas fogem muito mais por fobias do que por uma situação de perigo. Posso estar errada, mas tenho a impressão, aqui dentro, de que foi o seu caso.

Tudo bem, você não gostou mesmo e tal (não acredito quando diz que "gostou muito". Você sabe o porque), talvez tenha sido só uma aventura divertida. Desculpe, é que eu não sei jogar devido ao meu (errôneo) jeito autêntico de ser. Não podemos obrigar ninguém a ter sentimentos, eu ainda tenho alguns pressentimentos e sensações estranhas, mas há de se respeitar o espaço do outro.



Em todo caso, acho que precisava dizer algumas coisas, e como sei que não vou bater a sua porta, mandar essa carta ou coisa parecida, vou fazer o que sei fazer de melhor, que é escrever no meu espaço, no meu diário ocasional.

Eu realmente acho que não deu nem tempo da gente se conhecer direito, e independente de qualquer rumo acho que seria uma oportunidade e tanto, por isso decidi reunir alguns fatos sobre mim e que agora você nunca mais irá saber, mas que ainda assim são super importantes (para mim):

Fatos aleatórios sobre mim que você nunca mais irá saber - A lista

- Eu AMO Rap (Mesmo, de verdade, meu sonho é conhecer o Emicida, o Projota, o Mano Brown e o MV Bill. Ah, e o Marcelo D2 também. Inclusive sei que quase ninguém espera isso de uma garota, mas enfim)
- Uma vez meu pai me esqueceu no play do prédio da minha tia e o porteiro foi me levar de volta até lá. Eu tinha 5 anos e ele estava assistindo o jogo do Flamengo. Ele não lembra, mas eu nunca vou esquecer.
- Já tentei descolorir o cabelo sozinha em casa e ele ficou da cor de Fanta Laranja, fui a farmácia de Boné e comprei uma tinta para resolver.
- Eu nunca fui engessada pois nunca quebrei nenhuma parte do meu corpo
(em compensação, tenho o recorde de visitas ao centro ortopédico, devido a todas as incontáveis tendinites)
- Tenho medo de morrer
- Minha musa inspiradora e modelo de como ser uma mulher elegante e chique é, sempre foi e sempre será Audrey Hepburn
- Bonequinha de Luxo é um dos meus filmes clássicos favoritos, junto com O Piccolino, de Fred Astaire
- As duas grifes desejo da minha vida são Tiffany and Co. e Louis Vuitton. Se eu conseguir até o fim da vida ter ao menos um ítem original de cada uma ficarei imensamente feliz.
- Na verdade eu sonho em casar, ter filhos e noivar com um anel de brilhantes da Tiffany. Mas, na melhor das hipóteses, fico feliz com alguma aliança ou anel, o que importa é a intenção sincera e o amor que será carregado ali.
- Minhas viagens dos sonhos são Paris, Argentina, Inglaterra, Portugal, NY, Disney (sim, eu separo a Disney do resto), Itália, Japão, Grécia, os jardins de Amsterdam (Sim, só os jardins mesmo)
- Eu AMO flores, sou apaixonada. Meu sonho é ganhar um pouco delas, lindas e frescas, no momento certo, do cara certo. Vai fazer com que me sinta ainda mais especial. 
- Amo Pugs, amo, amo, amo. Ainda vou ter um.
- Poucas coisas na vida me fazem ficar tão calma quanto um brigadeiro. O único problema é que eu sempre largo a panela no meio.
- Tenho o desejo oculto (agora acho que não mais) de ser entrevistada pelo Jô ou Marília Gabriela.
- Falo sozinha quando estou sozinha. E sinto vergonha quando me pegam no flagra
- Eu danço sozinha em casa quando ninguém está vendo
- Minha cafeteria favorita é a Starbucks, sempre, sempre, sempre.
- Eu amo papelarias e canetas, sou capaz de gastar muito dinheiro com isso (se não me controlar)
- Tenho a fantasia oculta de morar em uma livraria
- As vezes me imagino vestida de noiva
- Quero aprender a tocar guitarra e bateria
- Gosto de Doritos com Nutella (Aliás acho que Nutella vai bem com tudo, tudo mesmo. Entenda como quiser)
- Quando tinha 13 anos detestava meus primeiros óculos, eram parecidos com os do Harry Potter só que maiores e sem a armação grossa. Minha mãe os escolheu.
- Já fiz trabalho voluntário com crianças em orfanatos. O amor delas foi o mais sincero que recebi na vida.
- Amo glitter, amo. Oncinha, zebrinha e dourado também. Mas cada dia tenho menos oportunidades de usar
- Adoro skate, surf e street dance. Não sei fazer absolutamente nada disso.
- Coleciono canecas
- Meu maior sonho é ser plenamente feliz, isso é piegas mas é a verdade mais pura do meu ser
- Não sei mentir, mesmo, e isso é um problema as vezes.
- Já tomei ocasionalmente Rivotril. Pensei em fazer isso esses dias, mas hesitei.
- Gosto de cozinhar pães e bolos. As vezes dá certo, as vezes não.
- Eu desenho, pinto, escrevo e adoro um origami
- Tenho medo de viajar sozinha, mas preciso superar isso

Existem mais uma porção de fatos, mas ficaria a vida toda para poder contar todos. Sei que nunca vou saber seus sonhos e aspirações, se dançaria no seu casamento, qual a maior loucura que já fez/faria ou se escalaria uma montanha. Por algum tempo vai ser estranho saber que nunca mais todas essas promessas de troca se concretizarão. Dizem que a palavra nunca é muito forte, mas acabo só sabendo usá-la. Sou uma pessoa que trabalha com fatos. A vida me obrigou a ser assim.

O que eu gostaria ou deixaria de gostar não conta mais, não vou ficar falando, sei que você não tem o mínimo interesse, hoje acho que um dia vou entender o que leva um fugitivo ser um fugitivo.

Eu optei por não tentar mais adivinhar o que vai me acontecer. Normalmente quando eu já estou meio lá, meio cá, as coisas me acontecem muito do nada e super rápido, dai meus amigos começam a perceber que tem algo diferente e ai vem as perguntas. Quase sempre é assim.

Não consigo desejar mil coisas, mas desejo que fique tudo bem e que você não morra. Na verdade em situações como essa fico torcendo para que aconteça para o outro algo do tipo uma promoção para outro país. Tudo ficaria muito mais fácil para todos nós.

Sei que nunca vai ler isso, mas fico em paz de saber que falei o que pensava, como sempre.

Isso ainda vai me levar a algum lugar, ou não.

Fabiana

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sobre trabalho e ócio.

Quando passamos muito tempo fora de casa, imersos em trabalho, aprendemos a dar valor aos pequenos prazeres. Sim, aqueles mesmos que você desprezava nos seus momentos de profundo ócio.
Chegar em casa e desejar do fundo do coração que a comida venha voando da cozinha até seu colo vira algo justificável, porque você está cansada e quer um pouco da deliciosa tranquilidade de não fazer nada.
Os italianos chamam isso de "dolce far niente", ou em bom português, o "doce fazer nada", ou ainda "o doce ócio", em tradução livre. É disso que precisamos em nossas horas vagas, um dolce far niente, para aquietar a alma e adoçar o coração. Quanto mais eu vivo, mais aprendo a apreciar os detalhes, dos quais, passo uma vida prezando. 
Ler um livro, ouvir uma música, se esparramar na cama, sozinha ou acompanhada, fazer as unhas, ler uma revista útil ou inútil, fechar os olhos e sentir cheiro de planta, de terra, de chuva, de vento. Apreciar o silêncio, que as vezes é tão incômodo mas pode ser tão restaurador. Colocar a roupa para lavar e só ouvir o barulho da velha máquina e dos carros passando lá fora.

Hoje trabalho no meio executivo, tenho que tomar muitas decisões todos os dias, montar estratégias, criar coisas, "ler" as pessoas e planejar maneiras de falar melhor com elas. Preciso regular a máquina na quantidade de água certa, preciso fazer contas, almoçar no mais delicioso e caro ou no mediano barato? Fazer uma previdência privada ou investir para um apartamento? Nosso cérebro é uma ferramenta maravilhosa, mas como qualquer máquina pode ficar cansada, Não sou diferente.
Apesar disso, sinto muito prazer no meu trabalho pois o ócio cansa e enferruja. Nunca mais somos iguais depois de experimentar o sabor do labor, isso oxigena nossas cabeças, refresca nossas idéias. Dê valor ao seu trabalho, por mais que a gente se esqueça de todo esse discurso as 7 da manhã.
Quando você experimenta os dois lados da moeda, vai saber depois qual deles escolher. No meu caso venho experimentando doses cavalares de endorfinas quando um projeto dá certo ou uma peça é aprovada. Acho que isso é ser workaholic, um termo para algo como "fanático por trabalho". Eu amo meu ofício, foi o que escolhi para mim, e de alguma maneira, por mais que precise de um pouco de dolce far niente, é só um pouco, porque creio que quando for demais o alerta trabalho logo apitará aqui dentro.
Fechar os cadernos, deixá-los no trabalho, pegar o longo caminho até a casa, abrir com a chave, me esparramar no sofá, ligar a tv, checar o whatsapp, desejar que a comida venha voando.
Work, eat, sleep, repeat.

sábado, 11 de abril de 2015

O Dia em que senti alívio

Uma manhã de sábado comum, acordei cedo e fui trabalhar. Um banho normal, um café pingado, com o mesmo adoçante de sempre, normal. O velho All-Star rosa Pink, a bolsa de claquete, nos fones, rádio cidade.
Pego meus óculos e ganho a minha normal rua, da qual já estou acostumada, e desde que regressei, cada dia procuro uma nova beleza para admirar.

De repente, sem querer, paro e percebo que estou conseguindo ouvir a Rádio que há séculos amo, sem sentir um desconforto no coração. Simplesmente ouço e pronto. Ontem a noite estive numa festa na Freguesia, algumas lembranças, é claro, tive medo de não aguentá-las, mas ai percebi que além de conhecer os caminhos melhor do que imaginava, cheguei, permaneci e fiquei muito bem. Comi, bebi, conversei, ouvi a música e depois do clássico "parabéns" fui embora. No caminho de volta, silêncio e contemplação. Tranquilidade.

Finalmente quando paro e junto esses fatos, percebo como numa revelação divina que não estou sentindo dor, e isso traz uma sensação tão maravilhosa de júbilo e paz interior! Sinto vontade de cantarolar bem baixinho, só pra mim, uma música qualquer, admirar o sol das 15h batendo na rua mais linda e bucólica de Botafogo, ir na cobal e encontrar os velhos conhecidos na fila do pão, reclamar da Dilma, da crise, falar da vida e sem aquele peso do "- Tudo bem?" "- Estou levando". Não! As coisas não estão perfeitas, ainda falta a tal estabilidade financeira, ainda faltam oportunidades, mas ainda assim, está tudo bem!

Evidente que muitos momentos de altos e baixos, TPMs, carências naquele sábado a noite em casa e tantas outras sensações ainda virão. Sei que as lembranças e os sentimentos existem e não serão apagados de minha mente, mas ainda assim, lembro de quando uma pessoa me disse que "Cada dia dói menos". É claro que parece óbvio, mas quando estamos no meio de emoções, não conseguimos enxergar a luz no fim do túnel, e por conseguinte acreditar que essa dor vai estagnar, cicatrizar.

No réveillon cai no chão e machuquei minhas duas mãos. Feriu, sangrou, ardeu, levantou pele. Por uma semana sentia incômodos toda vez que batia água ou produtos de limpeza ali, até o sabonete do banho fazia arder, foi horrível. Achei que não fosse aguentar, que fosse demorar a passar, e ainda por cima tive medo de complicações por uma possível não cicatrização. Dez dias depois começou a melhorar, e foi doendo menos e menos até as cascas caírem e apenas uma cicatriz feinha ficar no lugar e enfim conseguir fazer as coisas normais sem sentir dor ou incomodo algum. Hoje em dia eu olho e vejo só uma marquinha muito fraca, quase apagada, mas que serve para me lembrar do momento e que não devo correr com o chinelo que estava usando nesse dia, para não tropeçar de novo.

Lembrando dessa história tão banal, vejo que os rompimentos, términos, despedidas, demissões e tantos outros acontecimentos que simbolizam um fim e nos marcam são como esse machucado. O processo é exatamente esse, sem tirar nem por. Sentimos a inesperada dor, achamos que não vamos suportar, sofremos, choramos, reclamamos para todos a nossa volta, evitamos coisas que possam nos fazer lembrar desse momento, as vezes sentimos um pouco de pena de nós mesmos até, não queremos nos levantar e abrir as cortinas. Cada dor define a intensidade desse processo. Mas ai, de repente, quando aquelas sensações ruins parecem já fazerem parte de nossas vidas, finalmente percebemos que as coisas estão melhores do que imaginamos. Nos sentimos um pouco mal as vezes, mas ao mesmo tempo bem, até o dia em que as cascas começam aos poucos a cair, até só sobrar a cicatriz.

Nesse momento entendi que estou com minhas cascas começando a se soltarem, sei que ainda tenho algumas barreiras a vencer, e que depois ainda virá o maior desafio,o de lidar com a cicatriz e lembrar que novas experiências não necessariamente irão me ferir da mesma forma e que por isso não deverei evitá-las. Mas sei que de alguma forma vou aprender a lidar com ela, será mais uma para a coleção das várias que carrego, e sem dramas, pois elas fizeram de mim quem sou hoje, moldaram meu caráter, experiências, minha história.

Enfim, admitir esse tipo de coisa é tão calmo e restaurador, me faz ficar em paz. A cada pequena percepção como essa, enxergo uma vitória e me sinto mais forte, restituída. Agradeço a Deus pelo júbilo, pela pequena alegria que muda meu dia, e peço para que essa sensação não se acabe nos próximos dias. Os desafios vão vir, alguns vou enfrentar prontamente, outros irei hesitar até aceitar e sentir isso é tão humano. Nos permitir viver assim é o verdadeiro sentido da existência.

A dor vai ser menor até passar, está melhorando, estou melhor. Esse é o dia que enfim senti alívio por viver.